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Comentando meu último post sobre Berkeley, Hammadi escreveu:
>A questão de uma entidade que percebe o mundo mas não o compreende me reportou a idéia do demiurgo. Parece que foi isso que você relacionou citando os gnósticos. Bom, este dimiurgo é um ser que não possui consciência do mundo material pois lhe falta exatamente um corpo material. Portanto ele não sabe conscientemente o que é dor, alegria, etc. Pelo que eu me recordo das escrituras gnósticas, especialmente o Pistis-Sophia, e os relatos dos padres da Igreja sobre os heresiarcas, a coisa era exatamente o contrário: o demiurgo surgiu junto com a matéria (na verdade, um pouco depois), em conseqüência da queda de Sophia, e foi com essa matéria que ele construiu nossa realidade física. Em virtude disso, ele só tem consciência do mundo material, e não sabe nada a respeito do Pleroma, daí que se considere o deus deste mundo. Quanto a quem ou o quê é o demiurgo, eu não o considero como um ser real, mas como uma representação simbólica do ego. Existem várias pistas no gnosticismo que apontam nessa direção e as entidades gnósticas eram assumidamente reconhecidas como personificações alegóricas - essa era, aliás, uma das principais reclamações de Plotino sobre os gnósticos, o fato de eles dramatizarem conceitos filosóficos como se fossem uma história. Como eu mencionei na minha resposta ao teu outro comentário, o relato da criação do Pistis-Sophia pode ser lido como uma alegoria do processo por meio do qual a nossa percepção cria a realidade. Se a gente adotar esse ponto-de-vista, o surgimento do demiurgo é análogo ao momento em que a concepção de um eu pessoal é criado pela mente. De acordo com as descobertas recentes das neurociências, o ego não está presente desde as fases iniciais da percepção - pelo contrário, ele é um fenômeno posterior, que só surge no momento em que os dados sensoriais são integrados no lobo frontal. Mas, por uma deformação de perspectiva, esse eu, que na verdade é um efeito da percepção, se vê como se fosse o sujeito dessa percepção, da mesma forma que o demiurgo, que nasceu com o surgimento da realidade material, se considera o autor dessa realidade. A função do demiurgo também é a mesma do ego no processo perspectivo: o cérebro produz o ego como uma espécie de ponto-de-fuga, um eixo organizador da percepção, e os gnósticos diziam que o que o demiurgo fez é organizar a matéria, dando-lhe uma estrutura. Dentro da interpretação que eu venho construindo, relacionando a cosmologia gnóstica com a mecânica quântica e as neurociências, o processo todo pode ser resumido assim: Pleroma/superposição coerente => queda de Sophia/colapso da função de onda => criação da matéria => redução da indeterminação quântica a um estado com atributos limitados => nascimento do demiurgo => produção do ego => criação dos arcontes/estabelecimento dos filtros cognitivos que constituem o estado de sístase. Abs. L. |
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Atirador,
a falha é minha pois estou devendo uma explicação aos meus comentários. O que você disse é coerente e faz muito sentido. Então vou escrever de uma vez o que tenho para comentar a daí poderemos continuar. Antes faço uma introdução: meu conhecimento de gnosticismo é um conhecimento prático. Além de um cosmo existe um microcosmo. Então existe um "demiurgo" dentro do microcosmo também. Assim como existe os eões e um zoodíaco existe um zoodíaco microcómico também. E você tem razão ao falar do lobo frontal, além de um monte de outras coisas ( e sim, o demiurgo é o organizador da matéria... então, afinal de contas, o que estou querendo dizer? estou falando do "demiurgo" dentro do microcosmo...). Portanto vou fazer um texto completo e lhe dar as fontes de referência. |
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Ok, aguardo então o teu texto antes de tecer maiores comentários. Mas achei curioso você ter mencionado a relação macrocosmo/microcosmo, porque no final do ano passado, escrevi um texto que pretendia publicar no Franco-Atirador exatamente sobre isso. No texto, eu sugeria que a relação tradicional entre macrocosmo e microcosmo devia ser invertida: não é o microcosmo que deve ser considerado um reflexo do macrocosmo, e sim o macrocosmo que é uma projeção do microcosmo. Infelizmente, o texto ficou na memória do meu notebook, que eu não tenho como ligar porque perdi o diacho da fonte...
Assim que eu conseguir recuperá-lo, eu boto no blog - ou então reescrevo o texto de memória.Abs. L. |
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Escrevi um post que vou colocar em Somente a verdade. É uma introdução ao e que entendemos por gnosticismo à nossa "visao". Falta muita coisa. Percebi que o assunto é bem vasto. Bom, coloco aqui em primeira mão o post, pois lá em SV tenho que procurar imagens. Vou ter que dividir em pedaços...então vamos lá:
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Gnosis.
Escrevemos estas palavras com o auxílio de textos da revista Pentagrama do Lectorium Rosicrucianum (http:// www.lectoriumrosicrucianum.org.br). Usamos o pronome "nós" pois fazamos parte de um grupo ( os escritores do site Pinóquios "linkado" em nossos blogs) que possui unidade na Lembrança que move-nos nestes estudos e vivências. Os textos desta revista, que nos auxiliam aqui, são escritos dos alunos desta desta escola Gnóstica relacionados ao gnosticismo, escritos de Velentino ( como a Pistis Sophia), Mani ( salmos e hinos) entre outros. Este texto que agora escrevemos, longe de ser completo, assim como a própia revista, é uma tentativa de tornar clara uma visão que é essencialmente interna. Nos sentimos compelidos a isso devido aos posts do blog "O Franco Atirador " que em seus estudos deparou-se com o gnosticismo e suas influências. O que tentamos aqui, assim como a revista citada, é externar uma visão de vida que se orienta para o restabelecimento do "homem original". Desta maneira Gnosis não é um sistema filosófico do passado que voltou a gerar interesse, mas um caminho que o pesquisador deve seguir se estiver à procura do "Sentido " de sua vida, de sua vocação original: um caminho que leva o microcosmo ao ponto de partida, de onde, em um passado longínquo, este homem-microcosmo partiu e tornou-se prisioneiro neste "universo da morte" . Utilizamos uma maneira de escrever que torna nosso diálogo aberto a todos "os 20 e pouco leitores fiés de franco atirador" e aos nossos outros 20. A Gnosis toca o homem mostrando-lhe uma caminho, uma senda que deve começar nele mesmo. A Gnosis mesma é a Luz sobre esta Senda. Descobrir isso é como um acordar: uma possibilidade de livrar-se das correntes aprisionadoras externas e internas que tornam o homem cativo. A Gnosis, portanto, não é história nem recordação do passado, mas uma realidade viva e atual: um luminoso caminho de transformação interior: uma via Lucis. É uma experiência causada pela irradiação da centelha-divina presente no coração do homem: a centelha-de-luz dos antigos gnósticos, o proto-átomo, a Rosa, o núcleo espiritual original oculto no coração central do microcosmo. Esta experiência é vivenciada como a libertaçào da ilusão deste mundo. Na realidade, Gnosis é o conhecimento e o ensinamento da libertação do microcosmo caído. É por esta razão que os gnósticos dizem que "o homem é um deus decaído". Sua pátria original é outro mundo. Este é um pilar deste ensinamento, deste conhecimento: que existem duas ordens de natureza separadas uma da outra. Aqui é preciso explicar esta visão dualista, posto que esta não é radical nem absoluta: além dos conceitos filosóficos de dualismo, monismo, monodualismo e dualmonismo, a doutrina gnóstica parte da Verdadeira Realidade em última instância, ou seja, a Realidade adiquirida pela superação do estado de consciência dividida lançando uma ponte entre a separação entre espírito e matéria. Assim, os dois princípios estão unidos sem que se perca a dualidade nesta unidade. O caminho da Gnosis é um caminho religioso no sentido de uma verdadeira religio, traduzida aqui como religação: o restabelecimento da ligação com Deus. Em um texto de Hipólito lê-se: "O fundamento primordial de todas as coisas, do ser e da vida, o primeiro fundamento, é o Espírito. E o segundo, emanado através do primeiro, do Espírito, é o caos; Mas o terceiro, formado por ambos, é a alma. Ela parece um animal bravio, perseguida na terra pela morte que exerce sobre ela seu poder. Hoje no reino da Luz, ei-la manhã na miséria, quixosa e em pranto. À alegria segue-se a lágrima. A lágrima é seguida pelo juiz e o juiz pela morte. E, perdida no labirinto, procura em vão uma saída. Mas Jesus dise: "olha, ó Pai, para este ser sem pátria. Longe de teu alento ele erra na terra, quer fugir ao caos amargo mas não conhece o início da ascensão. Envia-me , Pai, para o bem deste ser. Deixa-me descer, com selos em minhas mãos, para que eu possa atravessar os eões, abrir todos os mistérios, desvelar o ser de Deus; Para que anuncie o mistério do caminho santo, que tem por nome Gnosis, Conhecimento"." |
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O homem-microcosmo é uma imagem do cosmo e do macrocosmo ( e, portanto vice versa, ou citando Hermes: "assim como em cima é embaixo"). Porém este microcosmo se degenerou depois que o Espírito se retitou do sistema. Atualmente o núcleo consiste em um fogo obscuro ( citanto Jacob Boheme, um fogo em brasa, que arde sem luz). Este fogo expressa-se pela "egoidade", manifesta na personalidade e é guiado pelos arcontes e seus doze eões. São forças naturais ímpias que regem o mundo e a humanidade segundo um plano não-divino. Portanto o processo de libertação do microcosmo , processo descrito com transfiguração, abarca a substituição total do núcleo obscuro e a construção simultânea de uma nova personalidade. Ora, antes daquilo se pode chamar de ressurreição é preciso libertar-se do círculo das forças dialéticas dos eões. Para isso todo auxílo é prestado, como se pode ler nos cânticos da Pistis Sophia. Cada gnóstico deve celebrar a ressureição dentro de si mesmo.
A Gnosis não fala do homem terrestre natural, os gnósticos não falam das experiências do homem exterior no mundo exterior, mas das experiências interiores do homem espiritual interior no mundo espiritual. Quando fala do Bem, o gnóstico se refere ao "só-Bem". Para ele o mundo perecível é Mal enquanto, como cativeiro, tenta impedir o desabrochar do homem imperecível. O mundo perecível é dualista para o gnóstico, portanto dialético, onde o bem opõe-se ao mal. Porém não há oposição entre o Bem absoluto do Espírito e o bem do mundo dialético: não há oposição entre o absoluto e o relativo. O dualismo somente existe entre dois polos de natureza semelhante. Para o gonóstico não existem dois princípios absolutos de bem e mal. O mundo espiritual é o Bem absoluto: a unidade da árvore da vida. O Mal absoluto não existe. Quando o homem se afasta da unidade ele mesmo cria a dualidade da árvore do conhecimento do bem e do mal relativos. Além disso, o mundo exterior também não é aboluto, mas vive do mundo espiritual e é sustendado por este. É vocação do mundo exterior ser uma expressão do mundo interior, espiritual. No evangelho de Felipe lemos: "Luz e trevas, vida e morte, direita e esquerda são irmãos gêmeos neste mundo... Porém aqueles que se elevaram do mundo são incorruptíveis, são eternos." Pelo que foi escrito até aqui, conclui-se que a Gnosis salva e liberta o homem espiritual, e não o homem desta natureza. Na realidade quem se encontra prisioneiro no universo da morte é o homem espiritual. Enquanto perseguir o bem relativo e lutar contra o mal relativo o homem come da árvore do conhecimento do bem e do mal. Assim, esta árvore toma o lugar da árvore da vida e a impede de crescer. Porém quando todas as tentativas de elevar o relativo ao absoluto se mostrarem infrutíferas, o espiritual, o absoluto mesmo revelar-se-á no próprio homem. Quando este homem espititual desperta, contrói para si um novo corpo adequado para si. Por isso a interpretação docetista dos antigos gnósticos é pouco compreendida. Ora, Jesus possuía corpo terrestre como qualquer outro ser humano, um corpo de carne e sangue, e o sacrificou como um sacrifício pelos outros, assim como tantos outros enviados. Porém este corpo terrestre não era seu corpo de fato, pois não era seu verdadeiro corpo que se harmonizava com seu ser interior. O verdadeiro corpo de Jesus é o corpo da ressurreição. Este corpo não pode simplesmente morrer, nem sofrer na cruz Podemos generalizar e dizer que o corpo terrestre de todos os homens, e não somente o de Jesus, não é o corpo verdadeiro, mas um "corpo aparente", pois o homem interior é o verdadeiro homem. Para o gnóstico o conhecimento que importa não é intelectual, assim como não importa a salvação do homem natural. O que importa é a conscientização do divino no homem. Isto acontece pela fé, pelo silêncio e pela total entrega ao Outro ( o divino no homem). Nada agradaria mais ao gnóstico do que ver toda a humanidade libertar o divino em si mesma. O divino é libertado pela formaçào de uma nova consciência. O cativeiro existe porque o divino que está dentro do homem não está consciente de si mesmo, e por tanto está apático, sem ação. O homem natural pode contribuir para que este processo de despertar do divino não seja perturbado, porém não pode ele mesmo como homem natural promover a conscientização do divino com suas próprias forças. O caminho gnóstico da "morte do eu natural" e da ressurreição do espiritual apenas é possível se a Força Crística mesma preceder-nos nesta senda, abrindo caminho e criando um campo de vida de baixo para cima onde os microcosmos anelantes possam se abrigar e respirar um novo alento. Portanto esta Força cria a possibilidade, mas é o homem mesmo quem tem que realizar esta possibilidade, num processo descrito em todo o evangelho. |
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Quando Jesus, o homem espiritual, desperta em um homem, este reconhece que o natural é apenas uma forma de expressão de símbolos espirituais. Como a natureza terrestre é dualista , ela não pode ser um símbolo da árvore da vida, onde positivo e negativo colaboram harmoniosamente e não constituem par de opostos. Compreende-se também que o corpo natural atual não é um templo do Espírito Santo e que a vida de um salvador como Jesus não é um acontecimento histórico, mas um testemunho do caminho de libertação: a destruição do velho templo e a constução de um novo templo nas forças do Espírito. Portanto quando Jesus desperta em um homem, este fica em condições de ler as Escrituras Sagradas em sua verdadeira acepção: como um símbolo do desenvolvimento da alma-espírito e da transfiguração de todo o microcosmo, portanto trata-se da representação simbólica da libertação interior.
De maneira resumida podemos citar o mito de Sophia. É este mito cósmico o relato atual da situação em que se encontra o microcosmo. O microcosmo original vivia em unidade com o Espírito. Nele vivia Sophia, a personalidade celeste. Em algum momento a alma-espírito começa a construir arbitrariamente e surge um desvio, uma pertubação. Em vez da Sabedoria divina é o princípio da egoidade que se ativa, o ser aural cego, Yaldabaoth, o criador de um firmamento próprio. Este "demiurgo" apenas criou imitações as quais faltavam o Espíirito. Assim foi criada a pesonalidade terrestre, mortal, pois a entidade de Luz não pôde continuar vivendo no microcosmo sob estas condições. Em seu lugar foi formado um "portador da imagem" com os elementos naturais, como imagem da entidade-luz original. Por piedade, diz o mito, Sophia planta uma semente-de-luz na alma animal do homem. Este portador de imagem é ligado então ao microcosmo e à centelha-de-luz. Esta centelha cresce como uma semente e se abre quando o egocentrismo deixar de dizer: "eu sou Deus e não há ninguém além de mim". Assim a alma-espírito pode voltar a viver e unir-se com o Salvador. Portanto o portador de imagem é a personalidade onde o Salvador se manifesta para a anular a falta de conhecimento, a ignorância e o esquecimento, e para erigir a partir da Rosa, da pedra-angular-semente-Jesus, a forma original do microcosmo. No livro dos salmos de Mani lemos: "Quero glorificar-te, pedra angular, inalterável, eternamente a mesma. Alicerce inabalável, Cordeiro atado à cruz da natureza, tesouro oculto na terra, Jesus, filho do orvalho da manhã, seiva de todas as árvores, doçura de todos os frutos, olhar do céu, guardião de todos os tesouros, herói que carrega o universo, alegria de todas as criaturas, paz dos mundos. É uma maravilha falar de ti. Estás no interior, no exterior. Estás lá em cima, estás aqui embaixo. Estás perto e estás longe. Estás oculto e manifesto. Cala-te e, no entando, falas. Tu és a glória por inteiro." Assim esperamos que a força por trás destas palavras possa tocar os corações dos buscadores assim como nos tocou. Que este pequeno texto sirva como uma semente lançada ou um convite á quem "escuta" pela primeira vez. Que muitos reconheçam já possuirem este convite de longa data e, tornando-se conscientes do mesmo, possam estudar seu conteúdo e atendê-lo. Hammadi. |
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Alô, Hammadi!
Li o teu post, agradeço você ter colocado em primeira mão aqui. Em linhas gerais, claro, eu tô de pleno acordo. Afinal, eu também me considero um neognóstico e, dentro do gnosticismo, a minha afinidade maior vai pra gnose valentiniana - embora, justiça seja feita, eu não tenho o menor escrúpulo de pegar emprestado idéias, conceitos e símbolos de outras correntes gnósticas. Mas isso, pelo que eu vi, você também faz, já que cita, por exemplo, os escritos de Mani, que é uma outra corrente gnóstica independente dos valentinianos e muito mais dualista do que estes. Como um todo, a visão de Mani não me atrai muito, devido justamente ao seu dualismo assumido. Como os valentinianos, eu sou monista, acredito que existe um único princípio, o espírito, e que a matéria é uma distorção provisória desse princípio único. Mas não nego que a imagem que Mani faz nas Acta Archelai, do universo como um mecanismo para separar a Luz e as Trevas, tem um forte apelo pra mim, especialmente em função das minhas idéias sobre o simulacro (que eu mencionei de passagem em um dos posts da semana passada e tratei mais aprofundadamente em meu livro). Além da minha abordagem do gnosticismo ser bastante eclética - meu gnosticismo é mais uma atitude geral diante do que chamamos de realidade do que um corpo doutrinário fechado -, creio que a principal diferença em relação ao teu texto, me corrija se eu estiver errado, é que a minha perspectiva sobre as entidades da mitologia gnóstica, como Sophia, o demiurgo, os éons e arcontes, é muito mais metafórica. Do meu ponto-de-vista, esses nomes não designam seres concretos, dotados de uma existência objetiva, mas são símbolos para determinados processos e conceitos que eu tento determinar quais são à luz do esoterismo, da psicologia analítica, das neurociências e da mecânica quântica. Posso estar enganado, mas a impressão que eu tenho ao ler os textos gnósticos (sobretudo os da escola de Valentino) é a de que essa perspectiva simbólica também era a deles. Quer dizer, ainda que algumas seitas, bem como os gnósticos leigos, pudessem acreditar piamente que havia uma figura real chamada Sophia e uma criatura semidemoníaca que era o demiurgo, o iniciado gnóstico tinha plena consciência de que esses personagens não deviam ser tomados ao pé-da-letra. Mencionei numa mensagem anterior a reclamação de Plotino sobre o hábito dos gnósticos de dramatizar suas teorias sob a forma de histórias. Cito agora, sobre isso, a explicação do prof. H.-Ch. Puech: "Implica, na minha opinião, uma concepção que acaba imaginando os conceitos como entidades, as entidades como seres humanos, e suas relações como relações humanas, sua derivação como uma história dramática que transpõe para o intemporal a sucessão e tudo que há de arbitrário nos acontecimentos aqui debaixo. Da emanação se passa à teogonia, das hipóstases a personagens ligados por dramas de família." Quer dizer, os mitos narrados pelos gnósticos não são acontecimentos reais, da mesma forma que os personagens desses mitos não são criaturas reais, mas alegorias, cujo sentido se tornava claro para o adepto do gnosticismo à medida que ele progredia no caminho da gnose. Ao tentar explicar essas alegorias de acordo com as ciências que mencionei mais acima, eu tento atualizar essa compreensão em termos que sejam familiares ao homem contemporâneo. Dessa forma, não creio que exista realmente um demiurgo - para mim, ele é uma personificação do ego, assim como Sophia representa a imaginação concebida como a força cósmica que dá origem à nossa realidade. Outro ponto menor de discordância é a concepção do microcosmo como um reflexo do macrocosmo. Eu sei que essa é a interpretação esotérica tradicional, mas à luz do que é dito na Tábua de Esmeralda, creio que essa relação deve ser invertida: o macrocosmo (isto é, o universo ao nosso redor) é que deve ser compreendido como uma projeção ou exteriorização do microcosmo (a nossa psique). Mas esse ponto, eu explico melhor no post que estou preparando pro Franco-Atirador. De resto, porém, como você disse inicialmente, temos muitas afinidades nas nossas maneiras de pensar. Abs. L. |
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Essa sua visão do macro como reflexo do micro está de acordo com a sentença de que nossos pensamentos determinam a ordem mundial em que vivemos. A diferença é que rejeitamos a doutrina esotérica segundo a qual os reinos de vida inferiores fazem parte de correntes de vidas divinas. Ao contrário: eles são consequências das atividades dos micrcosmos( mônadas) caídos. Portanto, seja como for, o mundo reflete o estado daquele que o cria.
Quanto as entidades mitológicas elas são exatamente isso: entidades mitológicas. O mito é uma história real desde que seja vivenciada. São símbolos, como você diz, manifestações simbólicas. Porém o homem terreno também é uma entidade mitológica. Na verdade somos uma parte de um sistema maior. E não são apenas os textos gnósticos que são mitológicos, as Escrituras Sagradas o são do incio ao fim, pelo menos aquilo que não foi adulterado. Dentro deste sistema que chamamos microcosmo o demiurgo é um usurpador. É ele que projeta o que entendemos como "eu". Vamos preparar um post sobre Valentino e outro sobre Jung. A Gnosis é atual. Valentino percorreu a Senda da Libertação e deixou suas pegadas escritas. Esta pegadas não são apenas os textos de palavras e letras, mas pegadas ígneas como símbolos de uma senda viva e presente, símbolos que se unem ao arquétipo da libertação da humanidade. Abraço, Hammadi. |
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Salve, Hammadi!
Quando eu me refiro à mitologia gnóstica, o termo "mitologia" não tem nenhum sentido pejorativo, muito pelo contrário. Os mitos são uma expressão simbólica de verdades psicológicas e espirituais e o pensamento mitológico é uma maneira de representar essas verdades de uma forma que seja acessível para a consciência. Nesse sentido, e você tem razão nesse ponto, todos os sistemas religiosos são mitológicos, e é essa mitologia mesma que os torna tão eficazes como demarcadores do caminho que conduz à libertação. Quanto à atualidade de Valentino, é evidente que eu não me consideraria gnóstico se não achasse que o gnosticismo é atual. Mas uma coisa é o conteúdo e outra é a forma como ele é apresentado. Ao apresentar os conceitos gnósticos, Valentino estava se dirigindo a pessoas que viviam num Império Romano fortemente helenizado, com influências egípcias e médio-orientais, e sua exposição precisava ser feita numa linguagem que fosse compreensível para esse público. Nós, por outro lado, vivemos no nosso próprio contexto cultural que, por mais analogias que tenha, é muito diferente do que existia no século II d.C. Imagens e símbolos que eram eficientes naquele contexto têm pouco significado pra nós. Então, justamente pra preservar a atualidade do gnosticismo, é preciso ser capaz de retraduzir essas imagens e símbolos numa linguagem que seja significativa para o homem de hoje. Conceitos-chave do gnosticismo foram apresentados à luz da ciência da época: a doutrina dos quatro elementos, a associação entre os arcontes e os sete planetas da astrologia tradicional, o mapa astrológico como destino (heimarmene), e assim por diante, todos pagam um tributo ao conhecimento que era acessível a um homem culto do sec. II d.C. Para que esses conceitos continuem sendo uma chave, é necessário fazer como Valentino e apresentá-los à luz da ciência da nossa época. Quanto ao ego, ainda que, como demiurgo, ele seja a fonte do mal nessa época, é preciso cuidado para não demonizá-lo. Se você ler cuidadosamente os escritos de e sobre a escola valentiniana, vai ver que ele é menos mal do que inconsciente. E Valentino escreveu com todas as letras que, em determinado ponto do processo de gnose, o próprio ego é redimido ao adquirir a consciência do pleroma, e então o demiurgo passa a servir a Deus: ele torna-se uma espécie de guardião das fronteiras entre este mundo e o pleroma, efetuando a separação entre os elementos espirituais, que devem ser reconduzidos a sua origem, e os elementos materiais, que devem ser dissolvidos. Abs. L. |
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Exatamente, a Gnosis é sempre atual e sempre se comunica na linguagem adequeda à época em que se manifesta. Ela se adequa ao tipo de consciencia do homem buscador em cada época.
Além do site do lectorium vou te indicar o site da biblioteca hermética: http://www.ritmanlibrary.nl/ Pena que fica logo alí, em Amsterdam. Abraço. |
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Em contrapartida, eu vou te indicar - se você ainda não conhecer - o site da Gnosis Archive, que tem versões online de praticamente todas as escrituras gnósticas, bem como uma série de estudos contemporâneos sobre a gnose: http://www.gnosis.org/search_form.html. Entre esses estudos, particularmente interessante é o material sobre a gnose valentiniana (embora a minha principal fonte não seja ele, mas o livro de Hans Jonas): http://www.gnosis.org/library/valentinus/sitemap.html. Como você também citou a alquimia várias vezes, vale a pena dar uma olhada em The Alchemy Website, com transcrições dos principais textos alquímicos de todas as épocas, além de comentários e interpretações contemporâneos, tanto sobre a alquimia física quanto sobre a alquimia espiritual: http://www.levity.com/alchemy/index.html.
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Se não for pedir muito, gostaria que vocês me passasse sites ou livros com informações, pois gostei e me interessei muito pelo Gnosticismo e sua filosofia, enfim, ser introduzido ao Gnosticismo
Eu tinha nenhuma noção sobre gnosticismo até ler essas discussões e simplesmente babei ao ler esse diálogo. Não sou muito de ler, mas sou muito de pensar e ficar horas filosofando no meu quarto sobre diversos assuntos e chegar a conclusões espetáculares que começo a rir de tão absurdas que podem parecer, mas vá saber né.. nenhum artista gosta da sua obra de arte, bem, é o que dizem hehe Sou baitzado católico, porém não sigo nenhuma religião - até por que nenhum me demonstrou tanto interesse - e, na minha visão, não preciso de uma para chegar a Deus ou ao Paraíso. Por que isso? Acredito que tudo o que preciso está dentro de mim e com isso, tenho de ir descobrindo o meu eu afim de chegar a Deus/Iluminação. Até mesmo com Deus eu converso como se estivesse conversando com o meu melhor amigo, usando todos os termos e girias possíveis no meu vocabulário. E quando terminei de ler o diálogo de vocês, comecei a rir pois, me deu um "estálo" e percebi que muitas coisas da Gnosis batem com muitos conceitos de vida que eu mesmo criei durante as minhas reflexões e "viagens" sentado no banco do onibus indo pra faculdade. No entanto, se não for pedir muito, gostaria que vocês me passassem sites ou livros com informações, pois gostei e me interessei muito pelo Gnosticismo e sua filosofia, enfim, quero ser introduzido ao Gnosticismo. hehe Agradeço antecipadamente Abraços, Alexandre |
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Ah, e desculpe pela repetição da frase no post acima.. é que eu começo a escrever dai eu vou formando outras idéias e chega num ponto que depois escrito tenho q organizar tudo.. hehe
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Salve, Alexandre!
>Se não for pedir muito, gostaria que vocês me passasse sites ou livros com informações, pois gostei e me interessei muito pelo Gnosticismo e sua filosofia, enfim, ser introduzido ao Gnosticismo Na Internet, um excelente ponto de partida é o Gnosis Archive, em http://www.gnosis.org/. Ali você vai encontrar uma descrição abrangente do gnosticismo, tanto antigo quanto moderno, bem como traduções de praticamente todas as escrituras gnósticas conhecidas e indicações bibliográficas que podem te ajudar a se aprofundar no assunto. Quanto a livros, infelizmente, a melhor introdução ao gnosticismo nunca foi publicada em português: The Gnostic Religion, do Hans Jonas. Mas você vai encontrar algum material bem interessante nos livros da Elaine Pagels, Os Evangelhos Gnósticos (Ed. Cultrix) e Adão, Eva e a Serpente (Ed. Rocco). Tem um outro livro também chamado Os Evangelhos Gnósticos, da Mercuryo, que contém a tradução de algumas escrituras gnósticas. O livro é pequeno e não tem nem um décimo do material encontrado em Nag Hammadi, mas contém o precioso Evangelho da Verdade, atribuído a Valentino, que apresenta a súmula do gnosticismo valentiniano. A descoberta da biblioteca gnóstica de Nag Hammadi é narrada em detalhes por um dos descobridores, o erudito francês Jean Doresse, em The Secret Books of the Egyptian Gnostics, uma obra meio datada quanto à interpretação do gnosticismo, mas que vale pelo relato em primeira mão de um dos participantes da descoberta. A interpretação junguiana do gnosticismo - que eu sigo em muitos aspectos e ignoro em outros - é tratada com profundidade em dois livros de Stephen A. Hoeller, ambos publicados pela Ed. Pensamento: A Gnose de Jung e Jung e os Evangelhos Perdidos. Os textos do próprio Jung sobre o tema - dos quais o mais importante intitula-se Aion - Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo, que também lida bastante com os paralelos entre alquimia e gnosticismo - encontram-se espalhados ao longo de suas Obras Completas, mas foram coligidos por Robert Segal em um volume precioso chamado The Gnostic Jung. Tem muito mais coisas, mas acho que com isso já dá pra começar. Os livros em inglês podem ser encomendados pela Amazon (foi onde eu comprei). Já os em português, você vai ter que dar uma fuçada nas livrarias ou procurar no site das respectivas editoras. Se você quiser, depois eu te passo mais indicações. >Acredito que tudo o que preciso está dentro de mim e com isso, tenho de ir descobrindo o meu eu afim de chegar a Deus/Iluminação. Exato. O ponto em comum entre todos os ensinamentos de todas as épocas sobre a iluminação é esse mesmo: você tem que se voltar para dentro de si mesmo. Nas palavras do bom e velho JC: "O Reino de Deus já está em vós." >E quando terminei de ler o diálogo de vocês, comecei a rir pois, me deu um "estálo" e percebi que muitas coisas da Gnosis batem com muitos conceitos de vida que eu mesmo criei durante as minhas reflexões e "viagens" sentado no banco do onibus indo pra faculdade. Rêrêrê. Você não é o único. Foi o que aconteceu comigo também. Eu já era gnóstico muito antes de descobrir o gnosticismo. Na verdade, esse gnosticismo espontâneo é mais comum do que se imagina: de William Blake a H. P. Lovecraft, passando por Philip K. Dick, existem dezenas de autores que acabaram chegando por si próprios a uma versão pessoal do gnosticismo. Aliás, isso aconteceu também com muitos pacientes do Jung, gente que nunca na vida ouviu falar do gnosticismo mas que, quando começou a prestar atenção nas mensagens que o inconsciente lhes mandava através de sonhos e fantasias, acabaram atraídos nessa direção por seu próprio impulso interno. Tertuliano, um autor católico dos primórdios do cristianismo, escreveu que "a alma é naturalmente cristã". Com o devido respeito a Tertuliano, eu acho que ele estava ligeiramente equivocado nesse ponto: imho, a alma é naturalmente gnóstica. Abs. L. |
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Salve de novo, Alexandre!
Me esqueci de um livro que você talvez ache bem interessante: Gnosticism and the New Testament, de Pheme Perkins. Apesar da linguagem ser bem simples e acessível, o livro é uma análise detalhada das semelhanças e diferenças entre o gnosticismo e os primeiros apóstolos do cristianismo, com uma ênfase especial em São João e São Paulo - este último considerado por Valentino como a origem de seus ensinamentos. Mais abs. L. |
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Alexandre,
>Sou batitzado católico, porém não sigo nenhuma religião - até por que nenhum me demonstrou tanto interesse - e, na minha visão, não preciso de uma para chegar a Deus ou ao Paraíso. Por que isso? Colocando apenas um graveto na fogueira: Heresia ( O jogo de poder das seitas cristãs nos primeiros séculos depois de cristo) de Joan O'Grady, editado pela Mercuryo. |
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>Colocando apenas um graveto na fogueira:
>Heresia ( O jogo de poder das seitas cristãs nos primeiros séculos depois de cristo) de Joan O'Grady, editado pela Mercuryo. É verdade, eu tinha me esquecido deste. Um bom texto introdutório. Embora só uma parte do livro trate do gnosticismo, o resto também tem um material bem interessante sobre as outras heresias cristãs, como o arianismo (a doutrina que negava a natureza divina de Cristo) e o pelagianismo (que pregava que o ser humano se salva não pela graça divina, mas pelas boas obras). Aliás, Hammadi, notou como, num certo sentido, o debate entre eu de um lado e, do outro, você e a Daniela, meio que repete a controvérsia do pelagianismo? Eu, como bom anarquista, defendo que são as nossas ações que nos conduzem ou não à salvação, enquanto vocês pressupõem que o homem só pode ser salvo por meio de uma intervenção exterior a este mundo. Curioso como a história é uma espiral que vive se repetindo... Abs. L. |
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Olá, Lúcio!
"Aliás, Hammadi, notou como, num certo sentido, o debate entre eu de um lado e, do outro, você e a Daniela, meio que repete a controvérsia do pelagianismo? Eu, como bom anarquista, defendo que são as nossas ações que nos conduzem ou não à salvação, enquanto vocês pressupõem que o homem só pode ser salvo por meio de uma intervenção exterior a este mundo." Bom, se realmente existiu um Adão físico, o pecado foi só dele e não se estendeu para o resto da humanidade, apesar de questões sangüíneas e tal.. - deixemos isso de lado. É claro que são nossas ações que nos conduzem ou não à salvação! Vamos dizer que somos semi-pelagianistas como Tomás de Aquino (se fôssemos católicos): o homem pode cooperar ou não com a graça divina para a salvação. Isso pela constatação de que o ego não dissolve a si mesmo, o pecador não tem como mudar seu próprio coração. Diria Krishnamurti, "Como pode a mente condicionada e aprisionada em padrões compreender a mente?". Como vivenciar a superposição coerente com uma consciência cristalizada em colapsos de onda? Também, talvez seja uma questão puramente prática. Crer-se dominado por forças egocêntricas e, ao mesmo, ansear pela libertação destas é uma prática de silenciamento do "eu", ou seja, acreditar que nada pode ser feito por você, além de colaborar, é não mais ler livros ou praticar sistemas desenvolvidos por outros, deixar de orgulhar-se de si mesmo e simplesmente não mais acumular saber; não mais procurar felicidade, conforto, estabilidade, sucesso, reconhecimento. Desistir de encontrar o paraíso onde ele não existe; admitir que tudo o que você faz é só um palpite e, na realidade, você não sabe o que deve fazer! Ou você sabe o que deve fazer? Todos os livros e técnicas que assimilamos são determinações dos nossos gostos pessoais, da nossa personalidade. Você é guiado, então, pelos seus condicionamentos. Dessa forma, não há como chegar a algo novo. Talvez não seja uma "intervenção exterior", mas sim uma mudança física em minhas ligações sinápticas ou a aquisição do poder de acessar um Conhecimento Universal existente como campo eletromagnético, quem sabe. Porém, um dia se cansa de ir tentando experiências, ao sabor do que se acha certo, de percepções restritas, de desejos. Então, você diz: "Tá, beleza, eu tou perdido mesmo, nada que eu faço funciona, tudo o que crio é passageiro. Me dá uma luz ae que tou a fim de desistir de mim mesmo e ver no que vai dar." Hehehe.. |
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Pois é Dani,
estava indo escrever mas não resisto a te responder algo ( quer dizer, me responder...afinal já cheguei a mesma questão...) >Então, você diz: "Tá, beleza, eu tou perdido mesmo, nada que eu faço funciona, tudo o que crio é passageiro. Me dá uma luz ae que tou a fim de desistir de mim mesmo e ver no que vai dar." Hehehe.. E não tem luz nenhuma! Mas esta questão é mais complicada, porque tem sim. É sobre isso que vou tentar escrever. Além disso vou tentar tornar mais clara nosso "conceito do cosmos". Acredito que está aí a diferença angular que torna nossas visões sutilmente diferentes, porém que após seu desenrolar mostram a radical diferença. Abraços. H. |
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Recentemente tenho entrado diariamente no Franco Atirador sempre a procura de um post novo. E só hoje o panaca aqui se tocou de novos conhecimentos e informações em uma fonte maravilhosa: o forum. ÊÊÊÊ!
Quando lido com religiões e toda as formas de misticismo e mitologia, caio sempre na mesma tecla: "será esses personagens e símbolos para serem tomados ao pé da letra ou serão apenas arquétipos, algo em que ao longo de suas histórias e sintaxes ocorra uma interação de função quase(?) poética com o leitor". Ainda estou baqueado por todos esses tipos de diálogos, pois até a poucos anos me considerava um ateu (o que hoje acredito ser muito difícil de ser 100%) pois enquanto usava a minha fúria adolescente para quebrar as correntes de minha velha religião, a fúria me cegou também, disponiblizou a opção sempre mais fácil: ligar o botão do "FO$A-SE, não importa". E acho muito engraçado de uns anos para cá enquanto leio muitas religiões (sempre inclusas nos posts do nosso anarquista) que muitos dos caminhos místicos se assemelham muito com minha jornada de ateu (até o próprio Cristianismo). Sendo um devorador de poesia, sempre vi tais ensinamentos como metáforas, arquétipos, símbolos etc e etcetera. Mas ultimamente, tenho tido minhas dúvidas sobre isso. Coisas como 'Será o demiurgo apenas uma personificação do ego para os gnósticos mesmo?'. Me veio isso enquanto estudava sexo tântrico, onde HÁ os chakras, os deuses e todo o Kraio-À-4. E até hoje que conheça, nunca vi uma ('sub')doutrina onde tratasse os chakras como algo simbólico de algo. O chakra É o chakra pelo que me parece. Uma das muitas razões pelo qual passei a estudar a "alquimia m'sitica", onde certas coisas são sim para se levar ao pé da letra... Quero parabenizar o rapaz que escreve os posts do blog. É muito difícil escrever sobre tais assuntos sem em nenhum momento cair na armadilha de cometer qualquer semelhança com a atitude "new age" (que acaba sempre levando para o caminho errado da coisa). Isso é muito bem exemplificado quando vejo os textos sobre o micro e o macrocosmo (que hoje já está banalizado. E tudo que é banalizado é porque foi compreendido de maneira errada). Abraço a todos os 20 fiéis leitores e o escritor. M.A. Lobato (ps: Ei Manfredi, você teve aulas de roteiro? Vc fez cinema?) |
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Salve, Lobato!
Putz, antes de mais nada, valeu pela sua mensagem. No meio de todo esse dramalhão cyberpunk que tá sendo a mudança do BloggerBr para o Uol Blog, com dores-de-cabeça de ambos os lados, é muito bom ver que tem gente que se interessa pelo que eu escrevo! >Ainda estou baqueado por todos esses tipos de diálogos, pois até a poucos anos me considerava um ateu (o que hoje acredito ser muito difícil de ser 100%) pois enquanto usava a minha fúria adolescente para quebrar as correntes de minha velha religião, a fúria me cegou também, disponiblizou a opção sempre mais fácil: ligar o botão do "FO$A-SE, não importa". E acho muito engraçado de uns anos para cá enquanto leio muitas religiões (sempre inclusas nos posts do nosso anarquista) que muitos dos caminhos místicos se assemelham muito com minha jornada de ateu (até o próprio Cristianismo). A culpa disso é das religiões institucionalizadas, que fizeram todo o possível pra convencer o mundo - a começar pelos próprios fiéis - que aquilo era a verdadeira religião e que é impossível encontrar o espírito religioso senão debaixo do guarda-chuva de uma igreja qualquer. Na verdade, quase que ocorre o contrário. Os místicos que você encontra dentro das religiões organizadas são verdadeiras exceções e quase sempre enfrentaram uma oposição feroz das autoridades eclesiásticas - pra, depois da morte, serem canonizados por aqueles mesmos que antes olhavam pra eles com suspeita. E, como eu disse, são exceções. O caminho da santidade (ou do buda, da iluminação, o nome realmente não é importa) é complicado paca e a grande maioria nem está disposta e nem sabe como suportar as dificuldades que isso implica. Pra eles, a religião acaba virando aquilo mesmo que titio Marx disse, o ópio do povo, com direito a todas as críticas que marxistas e anarquistas sempre fizeram às religiões. Por outro lado, o erro dos críticos foi jogar fora a criança com a água do banho. As instituições religiosas não seriam uma ferramenta de manipulação tão eficiente se não se alimentassem de um impulso legítimo, presente em todos os seres humanos, que é o impulso pela transcendência. Coube a Jung reconhecer que esse impulso é uma necessidade universal, e tão vital quanto a nutrição e o sexo, e talvez até mais, já que estes últimos podem ser considerados como derivados dele. Por coincidência, entre os posts que eu tô preparando pra alimentar o novo endereço do blog tem uma série em que pretendo discutir exatamente isso, a relação entre as religiões organizadas, a experiência mística e o impulso religioso. As idéias que eu quero colocar lá foram baseadas em uma série de debates que eu andei tendo ano passado na CienciaList e na Noosfera. Sobre o outro lance que você comenta, a questão da personificação, ele me parece importante e complexo o suficiente pra abrir um novo thread no fórum. Então, se você não se importa, vou botar as minhas idéias sobre isso numa outra mensagem. Abs. e, de novo, valeu pela mensagem L. PS. Eu estudei roteiro, sim. Pra falar a verdade, é com isso que eu trabalho. Mas na televisão, não em cinema. |
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Lúcio!?
Ora pois que eu o vinha procurando há tempos! Tudo bem com você? Se ainda se lembrar de mim, eu sou a mosca que há algum tempo havia pousado em sua sopa de letrinhas... Pois é... e não é que você também entrou de cabeça nesses assuntos gnósticos? Misticismo na fonte... Pelo menos é o que parece... Agora um problema: ainda que seja um conhecimento pretensamente "puro", incorre no problema da transliteração, aquela coisa de sofrer alterações sensíveis de conteúdo uma vez que se pense em colocá-lo em textos... ou mesmo em pretensamente imaginar-se apto a levá-lo a mais pessoas. A fim de evitar-se isso, já li um bocado de gente comentando sobre as práticas, antes que tentativas de entendimento racional. O que você me diz? Tem fundamento essa idéia de que este conhecimento todo não pode ser acessado sem ser convenientemente introduzido na rotina ritualística diária? Beijos, Lígia PS: Já se "iluminou"? |
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Oi, Lígia!
Claro que eu lembro de você - e o Zé Carlos e o Renato, continuam pentelhando na lista da Noosfera? É curioso você ter feito esse comentário justo agora, porque os posts desta semana no meu blog são exatamente sobre o gnosticismo, e o que eu estou escrevendo neste momento trata justamente da questão da prática gnóstica (deve ir ao ar entre hoje e amanhã). Eu não entrei agora no estudo do gnosticismo, não. Se você lembrar, vai ver que eu já falava disso nos tempos da Noosfera. Na verdade, eu estudo o gnosticismo desde os 16 anos, a gnose e o budismo, junto com o Jung, sempre foram as minhas principais referências. Mas não, ainda não atingi a iluminação. Bjs. L. |
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Grande Lúcio!
Fico no aguardo dos posts então! Quanto à Noosfera, anda às moscas. O JC anda sumido depois que detonou com a lista, assim como os demais "filosófilos". Ando pensando em fechar, simplesmente "delete" e buf! Assim, como anda tudo quieto por lá, eu tenho debandado para listas mágickas, onde o pessoal está antenado nesses assuntos que você comenta por aqui, apensar de nem de longe tratarem o assunto com a profundidade que você trata -andam perdidos em Crowley. Falando em magia, uma coisa que me chama a atenção é a necessidade de chegar à "iluminação" para que os prodígios realmente aconteçam - antes disso acontecem numa escala pessoal... do tipo: "só eu crendo está bom". Como o magista vai cansando com o tempo de acreditar de mentirinha, acaba indo buscar um caminho qualquer que o muna de "poder". Desta feita, há métodos e métodos para a obtenção desse poder, principalmente sem ter que atravessar o abismo, sendo que alguns,inclusive, envolvem o uso da evocação de demônios a fim de acelerar o processo... A pergunta é a seguinte: você já ouviu falar em Michel Bertiaux e a mistura de cultos afro com ensinamento gnóstico? Beijos, Lígia |
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Oi, Lígia!
>Fico no aguardo dos posts então! Os dois primeiros já estão online: é em http://atirador.zip.net - eu tive que sair do BloggerBr porque eles começaram a botar muitas limitações de espaço. O terceiro e último, eu tô postando entre hoje e amanhã. >Quanto à Noosfera, anda às moscas. O JC anda sumido depois que detonou com a lista, assim como os demais "filosófilos". Talvez essa seja uma das causas do marasmo. É difícil você se sentir à vontade pra discutir idéias livremente quando tromba com um sujeito que só tá interessado em vencer a discussão e que, pra isso, usa tudo quanto é artifício retórico, inclusive distorcer deliberadamente o que você escreve. É pena. No começo, a Noosfera era uma grande lista. >Assim, como anda tudo quieto por lá, eu tenho debandado para listas mágickas, onde o pessoal está antenado nesses assuntos que você comenta por aqui Eu assinei algumas também, mas todas em inglês. Você conhece alguma lista brasileira legal sobre esse tema? >apensar de nem de longe tratarem o assunto com a profundidade que você trata -andam perdidos em Crowley. Mas o Crowley é bacana, é uma das minhas principais referências. A gente só tem que tomar cuidado pra diferenciar o que é útil do que é megalomania do Crowley. Sabendo distinguir, ele vira uma fonte de informações preciosa - especialmente no Magick - Theory and Practice, onde ele abandona um pouco aquele estilo oblíquo e fala as coisas com clareza. >Falando em magia, uma coisa que me chama a atenção é a necessidade de chegar à "iluminação" para que os prodígios realmente aconteçam - antes disso acontecem numa escala pessoal... do tipo: "só eu crendo está bom". Como o magista vai cansando com o tempo de acreditar de mentirinha, acaba indo buscar um caminho qualquer que o muna de "poder". Mas a magia nunca foi uma trip de poder e prodígios. Desde a teurgia neoplatônica que quem entra nessa a sério está atrás da mesma coisa que os místicos: a iluminação. Aliás, o Israel Regardie comenta longamente sobre isso num outro livro que eu acho fundamental, A Magia Hermética. >Desta feita, há métodos e métodos para a obtenção desse poder, principalmente sem ter que atravessar o abismo, sendo que alguns,inclusive, envolvem o uso da evocação de demônios a fim de acelerar o processo... Quem tá atrás de poder encontra, mas não vai muito longe. Se você entra na magia pra satisfazer uma vontade de poder do ego, não chega nem a contatar o Santo Anjo Guardião (isto é, o self ou eu superior), quanto mais atravessar o abismo! >A pergunta é a seguinte: você já ouviu falar em Michel Bertiaux e a mistura de cultos afro com ensinamento gnóstico? Não - mas assim que postar esta mensagem, vou correndo procurar no Google. O assunto me interessa bastante, porque um dos pontos de partida da minha pesquisa foi a idéia de usar os rituais da umbanda e do candomblé. Depois, a pesquisa tomou caminhos bem diferentes - mas, recentemente, voltei a considerar o assunto quando trombei com um livro estranhíssimo na Amazon, no qual o autor faz uma comparação entre o vodu e a mecânica quântica (!). Bjs. L. |
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Oi Lúcio!
>>Os dois primeiros já estão online: é em http://atirador.zip.net - eu tive que sair do BloggerBr porque eles começaram a botar muitas limitações de espaço. O terceiro e último, eu tô postando entre hoje e amanhã.<< Se você me diz que já estão postados então já comecei a ler... >>Talvez essa seja uma das causas do marasmo. É difícil você se sentir à vontade pra discutir idéias livremente quando tromba com um sujeito que só tá interessado em vencer a discussão e que, pra isso, usa tudo quanto é artifício retórico, inclusive distorcer deliberadamente o que você escreve. É pena. No começo, a Noosfera era uma grande lista.<< Com certeza... Seria legal ter você de volta por lá... acredito que a lista deixou de ter um propósito a partir do momento em que você saiu. Mas não estou aqui para chamá-lo de volta não... fiquei realmente feliz de ter encontrado você de novo. Seu blog é um estouro! Está de parabéns! Muito conteúdo, várias referências. Já disse várias vezes: você vem fazendo um excelente trabalho de divulgação de idéias normalmente tratadas com muitos dedos e sem profundidade nenhuma. >>Eu assinei algumas também, mas todas em inglês. Você conhece alguma lista brasileira legal sobre esse tema?<< Eu não sei o que se passa... mas o povo que estuda esses assuntos é muito fechado, sem senso de humor, mezzo paranóico... e ainda estão naquela onda de "irmandade"... Sou membro de algumas. Infelizmente não as recomendo. Tem uma que está sendo iniciada agora e é de um conhecido meu: http://br.groups.yahoo.com/group/Metro_Linha743 Tem vários textos interessantes... vale a pena pelo menos pelo conteúdo da biblioteca. >>Mas o Crowley é bacana, é uma das minhas principais referências. A gente só tem que tomar cuidado pra diferenciar o que é útil do que é megalomania do Crowley. Sabendo distinguir, ele vira uma fonte de informações preciosa - especialmente no Magick - Theory and Practice, onde ele abandona um pouco aquele estilo oblíquo e fala as coisas com clareza.<< O Crowley é bacana! Sou apaixonada por ele, Lúcio! O problema é quem o segue... ele deixa muito claro que temos que ter acesso ao Self, ou ao SAG para que algo aconteça de substancial na vida do mago... o problema eu já disse: é o zé povinho. Acho que os magos sérios não participam de listas... Andei lendo algumas coisas como a "Carta a um Maçon" de Marcelo Motta, conhece? Ali parece estar contida a forma de interpretação que o pessoal vem seguindo... tipo: respeitando o grau evolutivo de cada alma individualizada... aceitar o que cada um faz e seguir o próprio caminho. >>Mas a magia nunca foi uma trip de poder e prodígios. Desde a teurgia neoplatônica que quem entra nessa a sério está atrás da mesma coisa que os místicos: a iluminação. Aliás, o Israel Regardie comenta longamente sobre isso num outro livro que eu acho fundamental, A Magia Hermética.<< Taí Lúcio... NUNCA foi. O problema é que esse povo de listas age de uma forma tão estranha que dá a entender que ou não entendem nada... ou pensam que ser mago é só decorar palavras mágicas, fazer evocações... >>Quem tá atrás de poder encontra, mas não vai muito longe. Se você entra na magia pra satisfazer uma vontade de poder do ego, não chega nem a contatar o Santo Anjo Guardião (isto é, o self ou eu superior), quanto mais atravessar o abismo!<< Pois é... mas vai explicar prás peças... >>Não - mas assim que postar esta mensagem, vou correndo procurar no Google. O assunto me interessa bastante, porque um dos pontos de partida da minha pesquisa foi a idéia de usar os rituais da umbanda e do candomblé. Depois, a pesquisa tomou caminhos bem diferentes - mas, recentemente, voltei a considerar o assunto quando trombei com um livro estranhíssimo na Amazon, no qual o autor faz uma comparação entre o vodu e a mecânica quântica (!).<< Pois então, vou ajudar você: vá atrás da O.T.O.A. - Ordo Templi Orientis Antiqua. Michel Bertiaux era gnóstico, foi iniciado também em várias práticas afro, entre elas o voodoo... e enquanto presidia a OTOA deu o roteiro prá muita gente ir buscar a prática junto aos cultos afro. Conheço um povo com quem bati de frente, numa briga feia mesmo, envolvendo rituais de sacrifício e minha tentativa de compreender o que move tais práticas. Junto com eles tem um magista de nome "nicholaj frisvold". Por ele vale a pena: é bispo gnóstico. Tomara que você consiga contatá-lo no meio da turma: http://br.groups.yahoo.com/group/diableriebrazil/ Eles estão na fase de morte do pequeno EU... desesperados por manterem as aparências e apelando a demônios goéticos, qliphoth... Um deles foi um dos fundadores da Ordo Draconiana: lida com prática mágica do tipo "sacrificial"... e é iniciado no culto de Ifá.Tente entrar. Só não fale que fui eu quem recomendou. Eles me odeiam. Sério. Diz que achou a lista no diretório do Yahoo. Beijos, Lígia |
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Heil todos os atiradores de plantão!
Estou feliz por mais uma perspectiva sobre os temas que o nosso querido Lúcio se aprofunda a cada post. Eu conhecia alguns posts e opniões da srta. Lígia de outros fórums (que acabei conhecendo através desse Tiroteio). Agora sobre essa figura enigmática e muito mal compreendida (inclusive por mim) Aleister Crowley. Eu li O LIVRO DA LEI e não entendi bolufas. Quer dizer, entendi aqui e lá, mas temo ser compreensões erradas, por conhecer pouco do mago. E temo que se entendi errado mesmo, caio no lugares errados/comuns que estão enchendo os "círculos/irmandades ocultas" (meu Deus...) e fórums sobre os temas. Comecei a ler o "Magick Theory and Practice" mas como sempre acabo pulando para um outro livro que eu possa digerir mais facilmente ou que me recomendaram (eu devo ser o cara que mais puxou livros e não os leu no último ano), ou acabo em alguma baboseira "acadêmica" da faculdade... Qual é desse Sr. Crowley afinal de contas? Um subversivo em sua época? O Picasso da magia moderna? Um maluco que se levava a sério demais? Um maluco que fingia se levar a sério demais em um toque de ironia? Por que ele dizia que Austin Osman Spare era um "mago negro"? Ah, são dúvidas demais... É como quando um professor no primário te pergunta se tu tem alguma dúvida, mas não tem como ter dúvidas pois você está perdido em excesso. Adoraria ver discussões de pessoas que o entendem e conseguem ainda manter um certo distanciamento! Por favor, atirem! Muito obrigado! Abraços! M.A. Lobato. |
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Olá Lobato!
Olha só, sou famosa e não sabia... . Prazer em conhecê-lo!Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar de Crowley, mas como não sou thelemita, não faço parte de nenhuma sociedade do tipo OTO, ou A.'.A.'., fica mais fácil comentar com o certo distanciamento que você procura para tentar entender quem foi essa figura da magia. O valor de Crowley foi o de trazer para um número maior de pessoas o conhecimento que vivia oculto dentro das sociedades secretas e dos meios sacerdotais desde que o mundo é mundo. É fato: desde a mais remota antiguidade a classe sacerdotal aprendeu a fazer contato com a centelha divina que habita nosso interior e a partir dela contatar com o criador de todas as formas... senão não poderiam exercer o sacerdócio, não é mesmo? Afinal alguém que vá intermediar os demais seres humanos e a divindade precisa ao menos conhecer a quem está intermediando... Pois bem. O Liber Al Vel Legis, ou simplesmente o Livro da Lei foi "recebido" através de uma canalização ou algo que o valha. Aiwass é o nome da entidade que ditou verso a verso todo o livro. Há quem julgue Aiwass como o próprio SAG de Crowley... outros o comparam a uma divindade da antiguidade. O caso é que a linguagem do livro é codificada, ou seja há símbolos que só podem ser "decifrados" pelos iniciados que irão compreender cada alusão e palavra a partir da decodificação de seu significado oculto. Um exemplo: fala-se em crianças não nascidas. Nada a ver com espíritos não encarnados mas a ver com masturbação e ejaculação com uma finalidade mágica... Outra coisa: as divindades egípcias ali citadas representam arquétipos e forças da natureza que vêm sendo "reconhecidos" pelas sociedades também desde que o mundo é mundo. Sim, é complexo: compreender o livro da Lei exige muito mais do que a simples leitura: exige conhecimento do que está sendo narrado ali a fim de que os símbolos todos façam sentido.OK, você poderá dizer que isso ainda não é acessível a todos. Mas mesmo assim, a partir da instauração da máxima também descrita no Liber Al: "Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei"; ou ainda "Amor é a Lei, Amor sob a Vontade", fica evidente que não há autoridade maior do que cada indivíduo que deve buscar por si mesmo realizar-se aqui no mundo. Assim, membros começaram a fazer a própria vontade... e começaram a divulgar seus conhecimentos ao mundo em princípio cético e ainda bitolado nos conceitos religiosos das massas, sem profundidade. Até que com a revolução cultural do século passado as coisas foram mudando, culminando nos dias de hoje quando então podemos ter acesso aos conhecimentos há milênios enclausurados em sociedades e grupos fechados num simples "clicar" de mouse e acesso a sites... OK, Crowley foi problemático também, teve uma educação repressora e a partir disso, viveu intensamente sua tendência ao homossexualismo, viveu com várias mulheres ditas "escarlates" por servirem ao propósito de oferecerem prazer e ao mesmo tempo "terreno" para a prática do tantrismo, usou heroína, fez práticas esdrúxulas, criou cisões... morreu na miséria e quase esquecido. Mas ele viveu conforme a própria consciência dele mandava. Não seguiu apenas cegamente aquilo que lhe fora dito anteriormente: ele pôs-se à prova e incentivou os demais a fazerem isso. Assim, ele abriu as portas para o auto-conhecimento mediante o usofruto da técnica de tentativa e erro dentro da magia sem perder o propósito de viver conforme a própria vontade. A postura dele ainda é anárquica: Cada Homem é uma Estrela no céu de Nut! Cada ser humano percorre uma órbita estelar, não há motivos para desejar-se que todos sigam o mesmo caminho! E assim, a liberdade de ser como se deseja ser e não como a sociedade exige, se fez. Faça o que você fizer, você estará certo, desde que você concorde com aquela atitude ela é certa. O que importa é a jornada... única e intransferível. Enfim, este parece ser o legado dessa figura controversa. Não há Deus onde Eu estou... . Deus est homo, Deus sou eu... é você. A idéia não é nova em absoluto. Mas precisava ser recordada... Ele recordou.Beijos, Lígia |
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Oi Lobato,
Faltou um "apêndice" no que eu escrevi ontem sobre Crowley. Para início de conversa, magia não tem cor. Essa divisão entre branca ou negra é só uma questão de foco, não indica que algo "branco" seja "bom", ou "negro" "mau". No final, os fins justificam os meios dentro desse mundo, assim, não importa o lado, o que importa é a intenção. O sentido que Crowley usou para acusar Spare de ter-se tornado um "mago negro" portanto não é o trivial, com base na eterna batalha entre o "bem" e o "mal". Achei num site interessante um comentário sobre isso: <<[...]Crowley e Spare foram atraídos cada qual por diferentes gurus que influenciaram tanto seu caráter quanto sua obra. Isto explica porque Spare ficou tão pouco tempo na 'Fraternidade da Estrela de Prata' (Brotherhood of the Silver Star, ou AA - Argenteum Astrum, fundada por Aleister Crowley a partir dos ensinamentos da Golden Dawn, Aurora Dourada, e para a qual Spare entrou em 10 de julho de 1910 com o motto de Yihoveaum, que significa "Eu Sou AUM", 'eu sou a eternidade'): a disciplina que era exigida por Crowley para os membros de sua fraternidade não combinava com a concepção de liberdade de Spare, que consistia na expressão artística irrestrita do "sonho inerente" que é, de certa forma, idêntico à Verdadeira Vontade (Thelema) formulada por Crowley. Para Spare, entretanto, a transformação deste "sonho inerente" em algo real exigia um tipo de liberdade diferente daquela idealizada por Crowley. O resultado foi que Crowley, dois anos antes de sua morte em 1947, perguntado sobre o que achava de Spare, respondeu que este se havia tornado um 'irmão negro' (mago negro, um termo usado em ocultismo para representar alguém que deliberadamente se afasta da corrente evolutiva, passando a considerar como objetivo primordial o culto à sua personalidade) pelo cultivo do 'auto-amor' através do prazer. [...]Em duas ocasiões anteriores, em 1921 e em 1923, Crowley escrevera que seu discípulo "aprendeu muito do 'Livro da Lei' (que forma a base do Culto de Thelema de Crowley, psicografado pelo mesmo no Cairo em 1904 a partir da comunicação astral com uma entidade chamada Aiwass); [...]Estas declarações de Crowley sobre Spare são muito interessantes porque mostram que o primeiro considerava o segundo como seu aluno de ocultismo, além de o ter em alta consideração por ter o mesmo baseado suas teorias na mesma tradição oculta que Crowley ensinava, embora de uma forma um tanto diversa.[...]>> http://geocities.yahoo.com.br/narakamus/nox/aosbio.html Tem o site da A.'.A.'. onde muita coisa pode ficar menos nebulosa para quem está buscando algum esclarecimento sobre Crowley. http://www.astrumargentum.org.br/estudante.html O fato é que Crowley considerava o "TU" em "Faze o que TU queres" como o "VOS" da oração do Pai Nosso: Seja feita a "vossa" vontade, seja feita a vontade do altíssimo em cada um de nós, ou Self para quem preferir. Agora... como encontrar tal Self é que são elas... e cada um que percorra sua própria trajetória mas sem perder o foco: o "encontro" de seu Self. Spare na concepção de Crowley distanciou-se dessa busca, centrado no próprio umbigo... daí a expressão mago negro ao referir-se a ele. Beijos, Lígia |
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Oi, Lígia!
Valeu pelos elogios - tenho certeza que são exagerados! Eu perguntei sobre a lista de magia mais por curiosidade, porque já assino um monte de listas e, com o trabalho e o blog, nem me sobraria tempo pra entrar em outras. Na verdade, eu meio que tô limitando a minha participação em outras listas. O que eu falei quando saí da Noosfera era verdade - não tenho tempo pra perder de duas a seis horas por dia respondendo mensagens. E também não ando com muita paciência pra ficar driblando todos os donos-da-verdade que andam por aí, tanto na magia quanto na ciência. >O Crowley é bacana! Sou apaixonada por ele, Lúcio! Rêrêrê... Eu não diria isso (até porque, no meu caso, não pegaria muito bem). Tenho muita admiração por alguns aspectos do trabalho do Crowley e algumas restrições e a outros. Todo aquele pseudo-satanismo pra epater les bourgeoises, por exemplo, me incomoda, porque é desnecessário. Ok, o Baudelaire também fazia isso, mas não deixa de ser rebeldia adolescente gratuita. >O problema é quem o segue... Toda vez que alguém é alçado ao posto de Profeta ou Voz Autorizada sobre qualquer coisa acaba saindo merda. De um lado, o apego literal à letra que mata (e não ao espírito que vivifica), do outro a burocratização, a institucionalização. Tudo isso atrapalha paca. >ele deixa muito claro que temos que ter acesso ao Self, ou ao SAG para que algo aconteça de substancial na vida do mago... E quando isso acontece, a tua principal fonte passa a ser o SAGA, não os livros do Crowley. >Acho que os magos sérios não participam de listas... Olha, eu sei de pelo menos um que participava, sim: o Benjamin Rowe, talvez o maior especialista contemporâneo em magia enoquiana e que, até morrer, em 2002, tinha uma participação ativa na enochian-l. Mas não se envolvia nessas controvérsias bobas de lista (Aprenda com ele, Lúcio, aprenda com ele...) >O problema é que esse povo de listas age de uma forma tão estranha que dá a entender que ou não entendem nada... ou pensam que ser mago é só decorar palavras mágicas, fazer evocações... Ou seja, não aprenderam a lição nº 1. Magia é o direcionamento da Imaginação pela Vontade (ou intento, como diria o Castaneda). Palavras mágicas, gestos, rituais, tudo não passa de maneiras de estimular a imaginação e canalizar a vontade (a Verdadeira Vontade, bem-entendido, que nasce do Self, e não a mesquinha vontade do ego). Qualquer coisa pode ser uma palavra mágica, desde que a pessoa acredite o suficiente pra mobilizar sua vontade e imaginação com isso. >Pois então, vou ajudar você: vá atrás da O.T.O.A. - Ordo Templi Orientis Antiqua. Michel Bertiaux era gnóstico, foi iniciado também em várias práticas afro, entre elas o voodoo... e enquanto presidia a OTOA deu o roteiro prá muita gente ir buscar a prática junto aos cultos afro. Eles têm algum site? Bjs. L. |
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Saravá, Lobato!
>Qual é desse Sr. Crowley afinal de contas? Um subversivo em sua época? O Picasso da magia moderna? Eu diria que ele tá mais pra "Salvador Dalí da magia moderna". Como Dalí, Crowley misturava declarações sérias com afirmações feitas só pra chocar, e você nunca sabe direito qual é qual.Sobre o Livro da Lei, geralmente é a primeira coisa que as pessoas lêem do Crowley, quando deveria ser a última. Como a Lígia falou, é uma obra em parte cifrada, em parte simbólica, que fica ininteligível se você não tiver ao mesmo tempo familiaridade com a magia em geral e com a magia do Crowley em particular. As melhores portas de entrada são mesmo o Magick - Theory and Practice e o Magick Without Tears, mas principalmente o primeiro. Mas, mesmo antes de atacar esses dois, é sempre melhor ter lido a Magia Hermética, do Israel Regardie, que é a melhor introdução que eu conheço à magia em geral. >Por que ele dizia que Austin Osman Spare era um "mago negro"? Ciúme profissional. O Crowley pode ter contatado o SAGA, mas afinal de contas era humano e não, não acho que ele tenha atingido a iluminação. A vaidade atrapalhava muito. Atrapalhou tanto que não percebeu que o que o Spare chamava de desejo e auto-amor era apenas outra maneira de se referir ao que o próprio Crowley chamava de Verdadeira Vontade e não tinha nada a ver com narcisismo ou os desejos do ego. Tanto o sujeito quanto o objeto do auto-amor não são o eu pessoal, mas a essência espiritual, que Spare denominava de KIA e que não é nada mais, nada menos que o Tao chinês. Abs. L. |
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Oi Lúcio!
Dá uma espiadinha neste site: http://homepage.sunrise.ch/homepage/prkoenig/otoa.htm agora visite com calma a página pessoal daquele magista que eu comentei na mensagem anterior, o tal Frisvold: http://www.geocities.com/erzulie_freda/zobop.html Tem lá: Sobre vodu: http://www.geocities.com/erzulie_freda/tronics.html Sobre Choronzon: http://www.geocities.com/erzulie_freda/morph.html E uma breve descrição do que se sucedeu à saída de Bertiaux da OTOA: http://www.geocities.com/erzulie_freda/newintro.html Mais artigos: http://www.geocities.com/erzulie_freda/christ.html http://www.geocities.com/erzulie_freda/words.html Divirta-se! Beijos, Lígia |
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Ah, Lúcio!
Per favore, quando puder, passe-me os links para as tais listas estrangeiras... Venho fazendo uma longa e acurada pesquisa... preciso de dados "da fonte".Beijos, Lígia |
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Esqueci deste!
http://homepage.sunrise.ch/homepage/prkoenig/xi.htm Bastante "ilustrativo"... fala ainda de Bertiaux lá no meio da página... |
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Tem mais este texto que vale a pena ser lido...
http://www.geocities.com/erzulie_freda/meontology.html Gostaria que você me desse um parecer de tudo isso quando terminar a leitura, principalmente de "Voudutronics". Eu tenho cá comigo minhas observações e ressalvas... mas como fui literalmente impedida de conversar com o autor pelos cães de guarda, a coisa ficou só na pura especulação da minha parte. Consegui, contudo, tecer um paralelo com aquele conto de Arthur Manchen - The White People... talvez estejamos perto de alguém que defende técnicas de literalmente "tomar o céu de assalto"... Ao que tudo indica, essa coisa de ir buscar a cópia perfeita do Mal não é apenas uma alegoria de contos de terror... tem fundamentos. O problema no caso é tecer paralelos entre o que é explicado nos textos dele e a minha realidade, por exemplo. Beijos, Lígia |
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Saudação Meus Jovens!
Bem, como diria uma adolescente em seu fervor robótico: "Meeeeeeeeuuuuu" (sem querer desmerecê-las, claro). Todos os atiradores de plantão estão dando uma ajuda enorme para desenvolver meu pensamento sobre magia. Sem desrespeito aos autores, mas Phil Hine e Peter Caroll (e outros que são mais "nomes principais" na magia moderna) simplificam demais o tema. Ao tendo o lado oposto, o Sr. Crowley me dificulta hehehe. Mas é maravilhoso conversar com pessoas que já tem noção do papo. Sendo um mero (bosta) principiante, concordo com o que Grant Morrison diz quando afirma que "conversar sobre magia com pessoas que nunca leram nada de sério é como conversar sobre sexo com um(a) virgem reprimida(o)". E que o Lúcio não siga o exemplo de outros magos sérios que não se dão o trabalho de frequentar fórums virtuais. Realmente, sempre achei estranho Crowley chamar Spare de mago negro. É que as fontes que acho essas coisas são mais magos kaóticos da internet. Site em que a maioria vai mais pelo lado do glamour rebelde (adolescente) que as palavras "caos" e "mago negro" (e todos essas coisas mais que daqui a 5 anos as Britneys Spears vão estar colocando em seus discos haha) oferece do que qualquer outro aspecto da magia. Um Abraço e Um Obrigado a Ligia e ao Lúcio! M.A. Lobato. |
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Oi Lúcio,
Achei mais um link bastante esclarecedor sobre a "contuda" de Bertiaux e o povo do Choronzon Club, ou simplesmente C.'.C.'.... http://homepage.sunrise.ch/mysunrise/prkoenig/html/cc.htm Uma coisa que eu não compreendo é a forma como se pode alcançar algo de "bom" ou de palpável com práticas assim. Repare que ele se diz "cientista"...Interessante a alusão à Física Quântica... vai ver o cara que escreveu o livro sobre Voodoo e FQ "faz parte"... Beijos, Lígia |

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